O que não deu certo: substitutos de desodorante

Em novembro de 2015, eu estava determinada a substituir todos os produtos industrializados que utilizava na minha rotina de higiene pessoal e na limpeza de casa por produtos mais sustentáveis, de preferência caseiros.

Inspirada pelas histórias da Bea Johnson e da Lauren Singer, corri atrás de receitas DIY para substituir aquilo que considerava mais crítico e urgente: shampoo e condicionador, finalizador para cabelo, desodorante, amaciante e sabão líquido para roupas, limpador multiuso e desinfetante.

Cogitei substituir também minha pasta de dentes, mas resolvi deixar para uma outra etapa. Ainda precisava me sentir segura fazendo minhas misturinhas caseiras, e queria ter certeza de que as substituições dariam certo – ou seja, que a troca de produtos industrializados por outros caseiros não iria comprometer a limpeza da casa e a minha higiene.

Os produtos feitos para a casa deram super certo. Eles deram conta não só de manter meu apê limpo, mas também foram uma mão na roda quando minha gatinha, Tati, que faleceu no final do ano passado, ficou muito doente e vomitava constantemente. Se eu usasse as versões industrializadas, teria gasto uma pequena fortuna, pois 500mL do meu desinfetante caseiro iam embora em uma semana no auge da doença dela.

Infelizmente, não tive a mesma sorte com os substitutos para a higiene pessoal. Neste post, vou falar só sobre a minha experiência com desodorantes alternativos – os testes com o método low-poo merecem um texto só para eles.

Comecei com a substituição do desodorante industrializado tradicional por duas alternativas muito celebradas entre os adeptos da filosofia lixo zero. Primeiro, testei a pedra de alúmen de potássio, também conhecida como pedra-ume, vendida em lojas online. Com a promessa de durar até um ano (de fato, usei por algum tempo e a pedra continuava praticamente intacta), a pedra não contém ingredientes considerados altamente prejudiciais à saúde presentes em alguns desodorantes tradicionais, como parabenos, ftalatos, cloridrato de alumínio e zircônio alumínio.

Depois de quase dois meses de teste, não obtive nenhum resultado. Nenhumzinho. Era como se eu não tivesse passado nada nas axilas. Para uma pessoa extremamente calorenta, que transpira como se não houvesse amanhã, foi um inferno. Era verão no Rio de Janeiro (!!!) e eu não podia continuar usando um produto que não eliminava o odor do meu suor, a menos que eu quisesse ganhar o apelido de “gambá” entre as pessoas mais próximas (que iam começar a se afastar de mim, aliás).

Com o fiasco da pedra-ume, resolvi testar o leite de magnésia. Depois de ler vários relatos dando conta de seu efeito quase milagroso, corri até a farmácia, comprei uma embalagem de leite de magnésia Phillips e transferi o conteúdo para uma embalagem de vidro vazia de desodorante roll-on, que havia comprado alguns meses antes na Alemanha.

Porque o leite de magnésia é um líquido meio ralo, eu tinha o cuidado de passar um pouco de cada vez e deixar secar antes de me vestir. Mesmo com todo esse zelo, o raio do leite não secava e acabava transferindo para as minhas camisetas. Era uma sensação desagradável, mas, não tinha jeito. Eu não tinha como esperar uma hora até poder me vestir, então engoli a seco e segui em frente.

O teste não durou um mês. Cansada com a sujeira que ele fazia nas minhas roupas – e não tendo visto nenhum resultado prático –, desisti do leite de magnésia. Resolvi então partir para uma receita que é um clássico entre as blogueiras lixo-zero: a famosa combinação de óleo de coco, bicarbonato de sódio, araruta, óleos essenciais e manteiga de karité.

Nas primeiras semanas, o efeito do desodorante caseiro durava poucas horas, mas resolvi insistir. Sabia que meu corpo precisava de um tempo para se acostumar com um produto que não atuava do mesmo jeito que as versões industrializadas, então fui bem paciente e continuei meu teste.

O esforço e a paciência foram recompensados com mais ou menos um mês de uso. O efeito do desodorante começou a durar mais horas, e ele segurou bem o odor das minhas axilas. Eu finalmente havia encontrado a solução que tanto procurava.

Nem tudo, porém, eram flores. Comecei a reparar que a pele das minhas axilas estava escurecendo e ficando avermelhada em alguns pontos. Inicialmente, creditei isso ao atrito da pele com o tecido das minhas roupas, mas isso não fazia muito sentido, considerando que, pelo fato de ser muito alérgica, quase todas as minhas camisetas são de algodão.

Preocupada com o que estava acontecendo, fui buscar mais informações sobre o bicarbonato de sódio – o único ingrediente da fórmula que, a meu ver, parecia ter potencial para ser prejudicial de alguma maneira.

Acabei me deparando com depoimentos de outras pessoas que haviam testado essa fórmula e sentiram o mesmo efeito. O problema estava mesmo no bicarbonato de sódio, que pode provocar reações em pessoas mais sensíveis. No meu caso, ele estava provocando uma baita dermatite de contato.

O bicarbonato de sódio – ou NaHCO3 – tem pH alcalino. Nossa pele tem um pH ácido e, quando exposta ao NaHCO3 por muito tempo, acaba reagindo, pois o ingrediente prejudica o chamado manto ácido da pele e a flora bacteriana local, deixando a pele propensa a infecções e irritações.

Abaixo, uma explicação científica desse efeito:

(…) é conhecido que o pH da pele é ligeiramente ácido e que pHs muito alcalinos podem danificar o manto ácido que atua como uma barreira antibacteriana, bem como desestruturar as lamelas da epiderme, favorecer o ressecamento pela maior perda transepidérmica de água e permitir a entrada de potenciais irritantes e alérgenos.

(Mendes, B.R., Shimabukuro D.M., Uber M., Abagge K.T. Avaliação crítica do pH dos sabonetes infantis. J. Pediatr. (Rio J.) vol.92 no.3 Porto Alegre May./June 2016. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572016000300290&script=sci_arttext&tlng=pt)

Em baixas quantidades, é possível que o NaHCO3 não provoque reações, mas a maioria das receitas de desodorante caseiro inclui o ingrediente em quantidades muito altas, chegando às vezes a compor 50% da formulação. Na receita que segui, o bicarbonato de sódio compunha mais de 20% da fórmula, uma quantidade que poderia facilmente levar à reação que tive.

Depois de meses de teste – e uma piora significativa da dermatite – tive que parar de usar meu desodorante caseiro. Fiquei desconsolada, pois, apesar da reação cutânea, ele efetivamente funcionava e eliminou o odor das minhas axilas (além de durar por muitas horas).

Mesmo assim, resolvi insistir um pouco mais nas fórmulas caseiras. Primeiro, testei uma receita do desodorante cremoso com os mesmos ingredientes (óleo de coco, araruta, óleos essenciais e manteiga de karité), mas deixei de fora o NaHCO3. O efeito no odor foi zero.

Depois, resolvi fazer um desodorante líquido, a base de extrato de hamamélis e óleos essenciais. O resultado foi ainda pior, porque, além de não funcionar, tinha um cheiro insuportável (mesmo com a adição de óleos essenciais) e manchou minhas roupas.

Cansada depois de tantos testes frustrados, voltei para o desodorante industrializado.

Sempre usei desodorante roll-on, que é o que melhor funciona para mim, mas, porque no Brasil é impossível achar o produto em embalagens de vidro por um preço acessível, resolvi testar o aerosol, por ser embalado em alumínio.

Resultado: também não funcionou.

Com o rabinho entre as pernas, aborrecida e me sentindo uma fracassada, não teve jeito: voltei para o desodorante roll-on. Só ele funciona na minha pele. Só ele dura as horas necessárias e não causa reações. Ele mancha as minhas roupas, mas não mais do que as alternativas sustentáveis que testei (com exceção da pedra-ume, que só ganha mesmo no quesito “não deixa manchas”).

Por que contei essa história tão longa? Porque, por causa desse fracasso, fiquei ainda mais determinada a diminuir minha produção de lixo doméstico. Saber que eu ainda não havia conseguido me livrar de mais um produto embalado em plástico me fez buscar compensar isso em outras frentes, como nas compras de produtos alimentícios.

Sempre que existe a opção, compro a granel e, quando não é possível, procuro as embalagens de alumínio, vidro e papel. Ainda há produtos que compro em embalagens de plástico, mas estou trabalhando nas substituições. Em breve, vou me livrar das sacolinhas plásticas de hortifrúti, e tenho cada vez mais cozinhado em casa.

Lixo zero, para mim, é como uma cenourinha balançando à minha frente, me lembrando dos meus objetivos. É impossível existir no mundo e ser completamente lixo zero, mas é possível existir e ser mais sustentável, evitando desperdícios e fazendo escolhas conscientes. Meu caminho ainda é longo, tenho vários erros a corrigir e substituições a fazer (alô projeto horta de apartamento!), mas sei que o importante nessa jornada, mais do que a linha de chegada, é como eu passo pelo percurso.

 

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2 Comments Add yours

  1. Aline Sales says:

    Ju! Fiquei feliz em ler esse post, é um caminho longo mesmo, mas que bom que tem uma galera que tá junto se ajudando…olha, eu tentei essa msm misturinha q vc usou do oléo de coco e tal, só que eu usei amido de milho e reduzi a quantidade de bicarbonato (na primeira vez tinha colocado bastante e me deu irritação tbm), fiz meio q a olho:
    3 partes de amido de milho
    2 partes de óleo de coco
    1 parte de bicarbonato de sódio

    Foi o que me salvou rs pq sempre tive problemas com os outros desôs industrializados, que além de não segurar o meu odor por muito tempo, deixavam resíduos eternos nas minhas roupas.
    Testa com menos bicarbonato e com o amido, de repente funciona.
    Bjo 🙂

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    1. julianaalvim says:

      Oi Aline, muito obrigada pelo comentário e pela visita! Ótima a sua dica! Esses dias eu bolei uma receitinha com uma quantidade bem menor de bicarbonato de sódio. Vou fazer até o fim de semana e testar. Se der certo, compartilho aqui também.

      Essa questão dos resíduos é um problema sério. Mesmo lavando bem, tenho camisetas escuras (eu uso muita roupa preta) com manchas brancas por dentro, um horror.

      O caminho é longo mesmo, mas é como você falou. Cada vez mais pessoas estão pensando e debatendo sobre isso, e a troca de informações é muito produtiva. Estamos todos juntos nesse processo. ❤

      Bjs!

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